Por Camila Marins

Você sabe quantas mulheres dedicaram sua força de trabalho, seu tempo e seu ativismo ao longo da História? Na sua militância, quais os nomes das mulheres que trabalharam e militaram por uma causa? Nossos nomes nunca são lembrados e, assim, nossas histórias e nossos corpos são apagados. Seguindo uma lógica extrativista, os grupos hegemônicos extraem nossa força de trabalho, nossas dores, nossa memória, nossos afetos e nosso close. Quais os corpos que importam? Viramos “cases” ou objetos de estudo em universidades. A luta não é apenas por close. E, sim, por existência. Existimos apesar de vocês, homens cis brancos que se apropriam de nossas narrativas.

Há algum tempo, postei nas redes sociais sobre a exploração de força de trabalho de pessoas negras por pessoas brancas na militância. Extraem de nossos corpos tudo aquilo que puderem para depois apagarem nossos nomes e nossos créditos. Nos jornais, fotos de brancos. Em palestras nas universidades, homens brancos. Nas falas, citações de homens brancos. Nas lembranças, homens brancos. E quem tem nome? Quem tem profissão? Pessoas brancas. As pessoas pretas não têm nome, sobrenome e nem a profissão reconhecida. E falo por mim. Muitas vezes, dediquei todas as forças do meu corpo para a militância exercendo coordenação política e adivinhem quem levou o crédito por NADA? Homens brancos. Sim, homens brancos que não fizeram nada, a não ser roubar o nosso close, o nosso crédito e as nossas vidas. Saibam que quando fazem isso, vocês estão roubando a nossa existência.

Eu ainda me assusto com a passabilidade branca nos espaços. Como é fácil existir e lacrar sendo branco. Um tapete de privilégios é estendido se você é branco, mesmo que você não tenha qualquer contribuição. Eu lutei anos e anos para ter o direito a falar e a escrever esse texto aqui. As condições a mim impostas nunca foram favoráveis e repletas de privilégios. E quem sabe o nome das pessoas por trás do tal “case de sucesso”? Apenas o homem que ganha a fala e o lacre. Sim, isso é apropriação e extrativismo da força de trabalho de mulheres negras.  Isso significa roubar um pouco de nossas vidas. Isso significa atentar contra a nossa existência. Parem! Parem seus corpos! Recuem. Recuem. Recuem. Não nos tratem como objetos e “cases”, somos sujeitas de nossa própria história e reivindicamos nossos nomes nessa narrativa. A luta também é por close se isso significar existência. Chega! E sabem o que sobra para nós, mulheres negras? A devastadora solidão.

Camila Marins é mulher preta jornalista com nome,  sobrenome e profissão. Ah, Camila também coordenou, ao lado de mulheres maravilhosas, a campanha lacração da transvestigênere Indianara Siqueira.

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