A principal característica de um relacionamento abusivo é a mulher não se dar conta dos mais diversos tipos de violência que permeiam a relação. Por muitos anos, esses abusos eram permitidos pela sociedade sem questionamento algum por conta da ideia de que mulheres devem ser submissas aos seus parceiros, porém, isso está mudando já há algum tempo. No entanto, a edição atual do Big Brother Brasil vem televisionando um relacionamento abusivo como espetáculo.

Marcos Härter é um gaúcho de 37 anos que se envolveu com Emilly Araújo, também gaúcha, de 20 anos. Os dois formam o casal que há semanas não sai do noticiário. O motivo é o pior possível: o constante destempero de humor de Marcos.

Apesar de não acompanhar o programa, basta sintonizar no canal que o veicula para assistir uma agressão de Marcos contra Emilly. Quando não está fazendo piadas com as coisas que a menina diz a fim de deixá-la com uma imagem “idiotizada”, o participante está aos berros com ela ou qualquer outra mulher da casa com a mesma postura: peito estufado e dedo apontado para o rosto da mulher com quem discute. Mas ele só age assim com mulheres. Ao discutir com Ilmar, último homem a deixar o programa, ele o fez sem gritos ou dedo apontado, deixando clara a sua misoginia.

Fora da casa, a sociedade assiste ao espetáculo julgando e tacando pedras na menina. Condenando-a, inclusive, como merecedora dos gritos que leva de Marcos. Perdi as contas de quantas pessoas já vi desejarem que Emilly apanhe de Marcos. É um verdadeiro show de horrores.

O relacionamento aconteceu por insistência de Marcos. Aos poucos, ele começou a mostrar a face machista. Piadas desmerecendo a Emilly começaram a aparecer com frequência, as discussões dos dois sempre são um monólogo onde Marcos fala mais alto, grita, não deixa Emilly se pronunciar e, por fim, diz à mesma que ela é muito nova, usando a diferença de idade para manipulá-la. Nas duas últimas discussões, Marcos encurralou Emilly na parede, pôs o dedo colado no rosto dela e gritou até se fartar. E disse a ela para que calasse a boca, porque era a menina quem o fazia gritar. O velho argumento misógino que culpabiliza a mulher pela violência sofrida por ela.

Por que Emilly naturaliza as violências que sofre? É a pergunta que muitas pessoas têm feito. A resposta é simples. A menina é jovem e está sozinha em um confinamento, o que a torna ainda mais vulnerável. Marcos é um cara mais velho e mais experiente, que já teve tempo suficiente para manipular a moça.

Na última discussão dos dois (09/04), que começou porque Ieda se aproximou para falar com Emilly, fazendo o gaúcho crer que era para falar mal do próprio, ele encurralou a menina apontando o dedo para o rosto dela novamente e gritou até estar satisfeito. “Presta atenção, Emilly, você tem que ficar comigo independente de quem eu ache que tem que ganhar”, dizia o gaúcho, com o dedo colado no rosto da menina. Durante a manhã, ele a abraçou e foi pedir desculpas. Deitou-se com ela no chão e, aos prantos, pedia para que Emilly não o fizesse desistir dela, momentos depois da gaúcha reclamar de hematomas deixados por beliscões que ela sofreu dele. O machista é o cara que agride durante a madrugada e pede perdão chorando pela manhã enquanto culpa a mulher. Por isso é tão difícil abrir os olhos de Emilly.

As agressões de Marcos vão além de Emilly. Ele já gritou com outras mulheres na casa, ostentando a mesma postura de misógino. Não há registro de discussões com homens onde Marcos tenha sequer gritado. A diferença é clara. Ele fez Emilly crer que ela estava sozinha na casa e não poderia contar com mais ninguém. Ao menor sinal de que outras mulheres estão se aproximando de Emilly, Marcos surta até afastá-las. E todo o abuso é televisionado. A agressão virou espetáculo ou “fogo no parquinho”, como dizem alguns homens da própria emissora em meio a gargalhadas.

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Mas não se enganem, o médico não é um monstro. Ele é só mais um filho saudável do patriarcado.

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