No dia 02 de Março, o Huffington Post publicou um artigo de Michael Hobbes sobre a “Epidemia de solidão gay”  e, logicamente, em pouco tempo o texto viralizou e foi traduzido para diversas línguas. A versão em português, publicada pelo LADO BI, pode ser lida aqui. O artigo levanta alguns pontos interessantes. Entretanto, precisamos pensar no porque de ele ressoar tanto e, principalmente, na forma como tem sido compartilhado.
 
Logo depois da introdução, Hobbes apresenta o ponto central do artigo e aquilo que é mais acertado nele: o “stress de minorias”. Basicamente, é a tese de que crescer sendo parte de uma minoria estigmatizada causa danos psicológicos severos nos indivíduos, o que PODE ajudar a compreender respostas destrutivas como o abuso de drogas, o complexo de inferioridade ou o suicídio. Faz sentido, e obviamente que não é uma exclusividade LGBT. Crescer “sob suspeita”, consciente da própria marginalidade e da possibilidade constante de violência física e psíquica é muito sério, muito doloroso, e molda a subjetividade de uma maneira muito específica. Mas essa é uma HIPÓTESE. Um caminho através do qual diferentes profissionais podem tentar entender e eventualmente resolver problemas médicos e sociais. Não é uma lei ou alguma verdade absoluta.
Questões sociais são mais complexas.
 
Na introdução, o autor faz uma comparação entre o estilo de vida de (alguns) gays na casa dos 30 anos e o de (alguns) heterossexuais na mesma faixa de idade. Esse questionamento é válido para levantar dados de análise, mas é preciso tomar cuidado com o discurso produzido por eles. O dado “gays se casam menos e se matam mais que heterossexuais” pode servir para corroborar pontos importantes sobre o “stress de minorias” e até sobre como a normatividade daquilo que é considerado ideal molda a vida de pessoas heterossexuais, mas pode servir, também, para validar uma ideia perigosa de que só existe felicidade dentro de um modelo específico de relacionamento.
Faz sentido que esse texto e esse questionamento apareçam agora. Afinal, o autor é um homem gay norte-americano que durante anos viu a demanda pelo casamento igualitário ser encarada como a principal demanda do Movimento LGBT. Logo, é natural que ele se pergunte porque a conquista do #LoveWins não resolveu todos os problemas do “ser gay”. Só que poder ou não casar é apenas outra demanda dentre várias. A igualdade de direitos (o que inclui o direito ao casamento) é fundamental, e quando falamos de um grupo social definido por suas práticas afetivas e sexuais é evidente que o valor simbólico do casamento igualitário é enorme, mas isso não resolve problemas estruturais dentro do segmento porque não dá conta de questões como o machismo, o racismo ou a transfobia.
 
É onde o artigo mistura as coisas.
 
Mais para o final, ele comenta sobre a masculinidade predatória, o culto à hipermasculinidade, a competição, a frivolidade e a toxicidade do “mundo gay”. Esses são assuntos importantes e que devem ser discutidos à exaustão, mas com MUITO cuidado. Eles podem servir para dar corpo a esse artigo como sintomas do “stress de minorias”, mas ao mesmo tempo em que Hobbes levanta esse assunto acertadamente no início do texto, se perde em uma crítica que beira o moralismo e até a homofobia depois, sem fazer os recortes de classe e de raça necessários também. Não dá para falar sobre relacionamentos dentro de um subgrupo excluído sem levar em conta a) como as relações estão sendo afetadas pelas redes sociais em todo o mundo e b) como o opressão altera TODAS as interações dentro desse grupo. E é nisso que os compartilhamentos do texto escorregam.
 

No artigo, o autor fala de um grupo bastante específico. Um “tipo de gay” que foi validado, no contexto estadunidense, como nicho de mercado pós anos 1990 (com o boom do Pink Money). Por isso, ao falar de como o ambiente gay é tóxico, ele fala sobre o Grindr e sobre West Hollywood, o “bairro gay” de Los Angeles que concentra a maioria dos estabelecimentos comerciais voltados para esse público. Ou seja, ele fala de um nicho social dentro do segmento estigmatizado. Um nicho que parece predominante porque é altamente representado culturalmente, na mídia e na publicidade, por seu poder de compra e normatividade. Mas um nicho. Algo que está longe de representar – até porque isso não é possível – a totalidade dos homossexuais dos Estados Unidos e, principalmente, do mundo. E os problemas desse nicho, inclusive no tocante ao racismo, ao classismo e ao machismo, precisam ser analisados dentro dele mas, principalmente, como PRODUTOS da exclusão criada pela LGBTfobia. É essa exclusão que transforma gênero, raça e classe em valores que podem ser negociados como mais ou menos próximos ao modelo ideal, fazendo com que pessoas LGBT reproduzam preconceitos também como forma de mendigar aceitação da “normalidade”.

No fim do texto, quando fala sobre o futuro e os anos que ainda devem passar para que jovens LGBT cresçam mais saudáveis, ele se redime porque volta a focar no “stress de minorias” e em seus efeitos. Mas aí, o estrago já está feito. Tanta gente compartilha o texto focando em “que pisão”, “que tiro” e em como “ninguém mais quer saber de namorar” que a parte relevante se perde. Isso acontece porque o modelo romântico de relacionamento seduz, especialmente porque é vendido como marco de status. O “final feliz” deixa de ser uma possibilidade para se transformar em uma obrigação, no único objetivo aceitável. E isso é ruim porque aumenta a sensação de deslocamento entre aqueles que não conseguem ou não desejam uma relação nesses moldes, além de – novamente – ignorar como opressões de gênero, raça e classe afetam a maneira como as pessoas se relacionam, são valorizadas ou preteridas em diferentes contextos sociais.

O que podemos concluir, então, sobre esse texto e a maneira como ele vem repercutindo? Primeiro que embora estejamos acostumados a lidar com textos curtos na internet, é preciso entender que NENHUMA teoria social será resumida de forma satisfatória em meia dúzia de parágrafos. Logo, qualquer texto ou vídeo precisa ser analisado criticamente, com cuidado, para que possamos entender um pouco sobre quem está dizendo o quê e para quem. Em segundo lugar, que mesmo um texto válido e que apresente boas ideias pode divagar em questionamentos menos pertinentes, e que talvez sejam justamente esses que tenham mais repercussão. Por fim, que o debate sobre segmentos estigmatizados/marginalizados precisa manter o foco nos efeitos do estigma e tomar cuidado para não culpabilizar as vítimas.

Ou seja, o que precisa incomodar e ser questionado na “solidão gay” são os mecanismos sociais que levam pessoas a aceitar que valem menos, a ponto de esse sentimento afetar a maneira como elas se relacionam em comunidade e até com o espelho.

Nunca, JAMAIS, se fulaninho tem namorado ou não.


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