O que é “dar pinta”? De quê, aliás? Pra quem? Dar pinta, quando o assunto é a homossexualidade, é trair um segredo nem sabíamos ser secreto. É estar sob suspeita, é crescer vendo cada desejo confirmar o que dizem ser pecado. É ser. Andar, respirar, falar, rir, dançar… E chorar porque de alguma maneira erramos ao fazer essas coisas tão básicas. Não que concordemos com isso, na maioria das vezes não temos nem idade para entender as coisas dessa forma, mas sempre tem alguém para dizer. Sempre tem alguém que faz questão de apontar, de gritar, de machucar. Matar? Claro! Como não? Afinal, é preciso mostrar quem manda. Quem é o SUPERIOR. Dar pinta é sobreviver.

DandoPintaSloganA Dando Pinta nasceu quatro anos atrás. Naquela primeira coluna, eu disse que esse espaço não falaria apenas do “ser gay”, mas também do que significa “ser homem”, e acredito que tenha tido sucesso nessa proposta. Se antes esses “mundos” pareciam-me tão opostos, hoje percebo que essa aparente oposição é apenas a relação entre eles. Quando falamos em identidades sexuais e nessa hierarquização de comportamentos que custou tantas vidas, ainda dividimos o mundo com binarismos tipo masculino/feminino e bom/ruim. E embora as relações de poder possam variar de acordo com o tempo ou espaço – por exemplo, quando uma bicha-lacradora-afeminada é aplaudida num grupinho de Facebook – , sabemos que no mundo real as coisas ainda são ditadas por rígidos padrões de beleza, de masculinidade e de conduta sexual. É tudo sobre PODER.

Sobre a coluna, timing é tudo. É claro que ajuda gostar de escrever e conhecer o assunto, mas isso aqui é um produto de seu tempo. O formato semanal ajudou na construção de um público seguidor e no desenvolvimento de alguns temas em arcos, mas foi o boom de textões e problematizações das redes sociais que fez tanta gente ler, comentar, compartilhar e reproduzir alguns dos textos daqui. Essa forma de expressão, esse jeito de fazer política através da escrita, foi reconfigurado na velocidade de um tweet, e foi isso que criou a Dando Pinta. E ela, por sua vez, há de ter inspirado A ou B a publicar algum texto ou gravar algum vídeo, a guardar aquele argumento pra usar na treta certa, etc. Cá estamos, conectados.

A internet é maravilhosa. Eu escrevo a coluna aqui em casa, na minha mesa cheia de bonequinho. A tela em que nasce a Dando Pinta é a mesma que uso para assistir o Xvideos Supergirl. É rotina, vem fácil para mim. Aí eu posto o texto e acontece a mágica! Em média, o alcance fica entre cinco e sete mil visualizações no dia da postagem, com uma galera amando e outra odiando. Esse é o normal. Mas tem também o inexplicável, quando um texto qualquer viraliza, o servidor fica sobrecarregado, todo mundo discutindo nos comentários ou alguma notícia ou polêmica externa faz a coisa bombar. E isso é ótimo, claro, mas para mim é sempre mais um texto simples desses que eu escrevo toda quarta, com a mesma estrutura e o limite de mais ou menos 800 palavras. E aí é uma loucura com cem, duzentas, trezentas mil visualizações no dia e gente me adicionando no Facebook, mandando mensagem, fazendo marcações, enviando e-mails, enquanto o texto se perde em republicações em outros sites, compartilhamentos com trechos selecionados, gente que posta um pedaço como se fosse o autor e até chega a alterar o conteúdo. Já aconteceu até de a coisa dar a volta e ter gente me indicando a leitura de texto meu ou pior, me acusando de me plagiar! Acompanhar os comentários no texto ou na fanpage então, fica impossível. Normal, coisas dessa mídia. A internet e sua loucura maravilhosa.

Mazéclaro, nem tudo são flores. A palavra escrita pode soar muito dura, especialmente quando estamos acostumados ao ambiente tóxico de disputa que domina grande parte da experiência nas redes. Incontáveis vezes fui atacado aqui. É parte desse negócio também. Claro que não é divertido quando alguém tenta desqualificar nosso trabalho, mas sem dúvidas os piores comentários são os de gente metida a psicólogo que acha que descobriu alguma grande verdade sobre mim ou sobre minha vida – que raríssimas vezes expus na coluna – por causa de um ou dois textos. Outra coisa curiosa é a indecisão, já que às vezes fui acusado de “discriminar padrãozinho” e em outras, de ser “padrão demais” para debater esse tipo de relação. É claro que ninguém é obrigado a concordar com nada, mas há uma diferença entre o debate e o ataque. Já falei que opressões e relações de poder são sempre relacionais? Pois é, na internet também. 😀

Hoje a coluna chega ao fim. O site continua e eu sempre posso escrever alguma coisa se for preciso, e mesmo a Dando Pinta pode retornar um dia ou mudar de formato, seja através do nosso canal de vídeo e no sonho eterno de publicar os textos em livro. De qualquer forma, é um ciclo que se encerra. E como sempre digo, esse espaço foi muito importante para mim. Para todos que escrevem falando sobre como os textos ajudaram e tal, eu indicaria esse exercício de escrever – ou gravar, desenhar, sei lá – seus pensamentos e pesquisas semanalmente, dialogando com as pessoas. É transformador. E principalmente, transforma a dor.

“Dar pinta” é sobreviver. É conseguir ser quando o mundo te diz não. Por isso é tão forte e por isso é tão universal às vivências LGBT. Por que não é sobre ser discreto ou pintosa, mas sobre resistir num sistema que exige o nosso fim. E nesse contexto, enquanto existirem identidades e enquanto “hétero” for o modelo ideal, tudo que é “não-hétero” estará sob ameaça. Tudo que é “não-hétero” será político. Tudo que é “não hétero” estará DANDO PINTA.

Pra sempre.

 

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