Enclausurado, romance de Ian McEwan publicado recentemente pela Companhia das Letras, narra a história de um bebê prestes a nascer, e que acompanha de dentro do útero da mãe Trudy – e de umas boas doses de vinho – os planos dela e de seu tio Claude, de assassinar seu pai, John, um poeta eternamente apaixonado pela esposa, que faz de tudo para manter a distância dele.

Estante2

O paralelo com Hamlet, de Shakespeare, é a coisa mais certa que existe dentro da obra, não só pelo enredo de homicídio, nome das personagens ou mesmo a epígrafe que abre a narrativa, como também pela figura fantasmagórica do bebê. Sim, aqui o “fantasma” não é o rei morto, mas o jovem príncipe, que do útero da mãe vai tecendo as mais variadas considerações sobre um mundo e pessoas que ele só conhece das coisas que consegue escutar através do ventre da mãe.

E, ainda que esse paralelo seja inconteste, eu que não li a peça de Shakespeare, relacionei o romance com outra grande obra da literatura, só que francesa, e foi com Thérèse Raquin, de Émile Zola. Isso acontece por justamente termos o planejamento de um assassinato que, ao se concretizar (sim, ele se concretiza. A questão nunca foi se se concretizaria ou não), torna-se um pesadelo na vida dos homicidas, a tal ponto que os laços que os uniam antes parecem transformar-se em algo muito frágil e que acaba por ter uma testemunha que nada pode fazer de concreto contra esses “vilões”.

O modo de narrar é incrível. O bebê possui uma perspicácia, um talento para a ironia que nos espantam enquanto leitores. Também nos delicia. Mas, há algo que me incomodou. Em alguns momentos ele fala de coisas que ele não teria como saber; são descrições de objetos e de posturas, de cores. Ele não teria como fazer essas coisas, pois não as conhece, nunca as viu. O bom é que isso não acontece sempre, então, em certa medida, é algo que pode ser ignorado.

Uma das melhores leituras que eu fiz esse ano, com toda certeza.

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