Por uma trajetória marcada pela ideia da soropositividade eu fui me construindo e aprendendo a ser gente; gente que coloca o vírus nas costas e caminha. Caminha para ingressar na Universidade, para arrumar um emprego, para ser reconhecido. Uma das coisas que eu sempre soube na minha história é o nome e o rosto do “culpado” por ela. Lembro-me exatamente no dia em que deixei de ser um simples jovem para ser jovem soropositivo. Todos os movimentos que foram conduzindo o meu corpo até que efetivamente chegássemos ao gozo e enfim a minha vida tomava o rumo NATURAL das coisas.

LadoPositivo2Descobri a minha sorologia estando namorando. Esse namorado foi, com certeza, a pessoa mais importante da minha vida, ele me deu carinho, atenção, me acompanhou no médico e para complementar ainda pagou as minhas consultas antes que eu finalmente fizesse parte das estatísticas do SUS. A minha grande preocupação era se eu não havia passado HIV para esse meu companheiro que muito cuidava de mim. Como uma espécie de presente, anos se passaram e nada aconteceu com ele.

Com um ano de tratamento eu fui para uma das muitas consultas de rotina e bem na minha frente eu acabara de encontrar aquele rosto que junto comigo equilibrou nossos corpos. Cumprimentei como se nem soubesse do que se tratava apesar de estar colocada a situação. Foi aí que ele me perguntou quanto tempo eu me tratava, e respondi. Voltei com a mesma pergunta e com uma cara assustada me deu incríveis 6 meses como resposta. Meu médico me chamou e eu não parava de pensar nesse número, afinal eu estava errado.

No mesmo dia ele me adicionou nas redes sociais e puxou assunto comigo, assumindo que pouco mais de um ano antes de me conhecer ele havia feito exames e havia dado positivo, mas que por medo ele não quis ir repetir os exames, chegou a repetir, mas não fez os confirmatórios e tudo que ele tinha na mão eram dois resultados positivos e um sentimento de medo da realidade que assombrava seus sonhos. Ele me pediu desculpas porque provavelmente era ele quem havia me transmitido o vírus; eu tinha certeza, pois além de sempre saber aquela foi a minha relação “desprotegida” com um sujeito de pouco conhecimento, depois eu namorei e meses mais tarde eu era o mais novo jovem positivo. Uma coisa que me lembro foi que terminamos nosso “caso” não forma amigável. Na época eu não sabia muito que significava aquilo, mas se tratava de um

relacionamento abusivo, que me pressionava, que não me dava liberdade etc. Foram 4 sexos; 3 vezes sem preservativo. Eu saia de um relacionamento abusivo marcado para sempre por aquele homem que dizia que não “sabia viver sem mim”…Nesses discursos me pressionava, não me deixava viver, até quebrei o meu celular na época para que não me procurasse mais. Andando pelas ruas conheci o cara que ficou do meu lado desde o meu diagnóstico até o dia em que eu sai do consultório médico com as cores amarela, azul e branca dentro de três frascos, aquilo era a minha vida a partir dali, os comprimidos antirretrovirais.

Anos depois eu confirmo tudo isso, e ele brinca comigo de me adicionar e de me (re)adicionar no facebook. Seu perfil é bloqueado para mim, mas as minhas fotos no Instagram ele curte como prova de “marcar território”. Há alguns dias atrás tivemos a nossa última conversa, já cansado dessa situação, ele parece não me respeitar quando eu digo que eu namoro e sou feliz. Sempre me responde que não é feliz, que eu acabei com a vida dele e que ele me amou de verdade. Penso muito na possibilidade de uma pessoa ter efetivamente me amado da forma como diz ser em poucos meses de convivência.

Nessa última conversa que espero eu tenha sido definitiva tive a notícia de que faz 15 dias que ele abandonou o seu tratamento e como o de costume disse que eu tenho CULPA nisso tudo, pois lá trás não quis ficar com ele.

Está aí uma palavra que eu não utilizei nesse texto “CULPA” (pelo menos de forma afirmativa). Em nenhum momento eu o acusei ou se quer lamentei mesmo que a única certeza que eu tenho eram dois exames positivos para HIV. Uma coisa que eu não consigo desconstruir é essa sensação de culpa que eu carrego, afinal de contas ler que você é causador do abandono de um tratamento não é uma tarefa muito fácil, é talvez a situação mais complicada dessa minha vida com o HIV nas costas.

Sei que existe uma possibilidade (e tenho certeza que é) muito grande disso tudo não passar de uma enorme mentira. Sei também que eu sou uma pessoa desconstruída sobre medicalização e eu mesmo já fiquei alguns dias sem tomar remédio porque simplesmente estava enjoado, mas culpado eu não quero ser. Eu nunca pensei que fui vítima de um “carimbador”, afinal ele nunca colocou uma arma na minha cara, eu quis fazer sem camisinha.

A questão é, será que eu sou realmente culpado do tal abandono antirretroviral dele ou ainda não aprendemos a lidar com os nossos problemas e nos apoiamos na ideia da “culpa”? Ainda mais se tratando de HIV? As minhas certezas são que eu não fui “carimbado”, que ele não é o culpado, que se verdadeiramente largou o tratamento isso é um problema dele, já que eu só sei de sua existência quando vai marcar seu território virtual e, por último que eu tenho HIV.

Leia a Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Você pode falar comigo escrevendo para [email protected].

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