Para iniciar esse texto eu gostaria de dizer que para mim também não foi muito fácil aderir ao tratamento. A adesão é uma experiência marcada por diversas questões que vão desde aceitar o HIV enquanto diagnóstico, passando por problemas que dizem respeito ao meio social no qual se está vivendo até chegar ao estágio de luta e resistência contra os medicamentos, até o questionamento sobre a eficácia deles.

LadoPositivo2Hoje, infelizmente a solução mais eficaz para a qualidade de vida de uma pessoa soropositiva é o uso diário de remédios. Particularmente, não sei se outra forma de tratamento faria diferença ou seria solução para a dor de colocar dentro do seu corpo o fardo sociocultural da Aids. As diferentes formas de como se recebe o diagnóstico, ou mesmo as suas questões pré-positividade dizem muito sobre como será a sua vida com esse lado irreversível.

Diversas pessoas que tive (e tenho) contato nos últimos tempos estão me falando sobre as marcas da adesão. Imaginemos uma pessoa que está passando mal constantemente, que diariamente tem se sentindo diferente, sem força para resistir, já em estado de internação e sem expectativa de vida? Quando esse quadro consegue ser revertido para uma doença crônica a adesão é a forma mais “simples” de curar o medo de voltar a ver a morte de perto, já que esse alguém enfrentou uma situação bastante particular.

No entanto, ver a morte de perto eu penso que seja uma realidade para todos nós que vivemos todo dia com a certeza de um resultado, de um lado positivo da vida, sem saber como será o amanhã, já que tudo é muito incerto. De repente novos diagnósticos, respostas e soluções? Imagina aderir um tratamento, os dias passarem, os meses passarem, os anos passarem e nada mudar? Realmente, vivemos sob esperanças de que tudo vai melhorar e que um dia poderemos sair desse estado crônico. Particularmente, eu vivo todos os dias com medo da expectativa de vida, me perguntando se tudo o que eu estou fazendo, todos os frutos plantados um dia irei vê-los em vida. Para muitas pessoas o envelope é uma estranha sensação de alívio, para mim, como tive a oportunidade de escrever em outros textos, também foi. Mas os envelopes, os envelopes incertos, esses nós não deixamos e nos perseguem a cada nova consulta quando precisamos acompanhar a evolução do tratamento.

Essas implicações criam tabus que nem ao menos percebemos que estão soltos pelo ar. Nosso corpo é o laboratório em vida de produções de limites. Pessoas que antes de se aceitarem positivas eram preconceituosas e tinham a identidade sorológica como frutos de impureza, conseguem destruir esses limites simbólicos e simplesmente mudar de lado? “Vencer” essa primeira etapa e aderir ao tratamento não significa desconstruir preconceitos?

Quando tomamos remédios, tomamos consciente ou inconsciente todas as implicações morais sobre o vírus. Como eu disse no início do texto, não foi fácil para eu aderir ao tratamento. Nunca deixei de tomar os remédios por nenhum dia desde quando recebi os meus primeiros frascos e um lindo e estranho “boa sorte” de uma moça que vivia a experiência há 20 anos.

Há pessoas que não entendem como é difícil aderir ao tratamento simplesmente porque não tiveram nenhuma dificuldade, ou porque foi à última solução possível. Como disse, nunca deixei de aderir, mas ainda assim não descarto questões que eu tenho que trabalhar sempre. Aderir ao tratamento não é simplesmente tomar os remédios, aceitar o HIV, chegar ao estágio indetectável etc. Aderir são todas essas questões e mais a superação de uma série de simbologias que precisam ser desconstruídas diariamente.

Sem isso, quando os ponteiros chegam ao marco zero da positividade o remédio vira “reflexo da doença”, e colocamos para dentro uma bomba e não uma esperança.

Leia a Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Você pode falar comigo escrevendo para [email protected].

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