Texto de Heitor Marconato, homem trans e ativista do Ibrat SP

Tenho vivido minha identidade de gênero, aquela que aflorou por meados de 2013 e que tem me conduzido ao que sou hoje, um homem trans. Pode ter sido uma crise dos 30 precoce (na época tinha 28) que me trouxe uma série de questionamentos sobre a forma como eu me percebia – tendo vivido já praticamente três décadas. Não considerei perder tempo, queria viver, de fato. E tem sido assim, continua assim e tem me proporcionado existir, viver intensamente.

transbordando

É importante, ao construir a própria identidade de gênero masculina, compreender o que isso significa, afinal. No início indagava: o que é ser homem? Eu queria ter respostas prontas pra me poupar da pressão de saber sobre o que eu estava reivindicando e até hoje não tenho uma resposta clara e rápida, mas é necessário compreender que nossa sociedade está embasada no sistema de gênero binário homem x mulher. O que pretendo dizer com isso é que o que já vem pronto e tabelado pra definir o que é homem não é por acaso: homem, mulher, são gêneros definidos com lugares e valores e papéis que sustentam a dominação masculina em nossa sociedade machista, patriarcal, capitalista, cisnormativa.

Nesse aspecto, o homem trans já está posto; existe, subverte. Sua construção identitária, assim como a dos demais gênero-divergentes, rompe com os dogmas define-se politicamente em nossa sociedade. Sobre nós, não há abolição, muito menos cristalização, mas a consolidação do gênero masculino enquanto construção social.

Isso significa que nossas masculinidades são tão diversas quanto às dos homens cis e que é possível que sejam moldadas e de maneira consciente. O homem trans é aquele que foi designado mulher ao nascer por uma sociedade cisnormativa. Não digo que, ao ver um bebê sem pênis, deve-se supor qual a maneira como esse pequeno humano venha a se identificar, mas procurar entender que sua identidade é uma construção, havendo sistema normativo ou não – e a cisnorma atrapalha nossas vidas. Enquanto nascidos com o corpo fêmea, procuramos por alterações que venham a nos proporcionar saúde e bem-estar físico e psicológico conforme nos identificamos e, quanto ao nome, existe a necessidade de fazer-se entender homem, masculino; temos, escolhemos o nome social. No meu caso, Heitor.

Para quem não sabe, o nome social é aquele que costumam não respeitar, aquele que acham que é um mero apelido e desconsideram sua necessidade, insistindo no uso do nome civil e discordante com a identidade de gênero, quando os documentos ainda não foram retificados; desrespeitando, constrangendo e violentando na insistência ao uso do nome civil. Dada a imposição masculina em nossa sociedade impulsionando um sistema de controle a partir do gênero masculino entendido e moldado de maneira a manter esse sistema, é óbvio que não é com “homens” que devemos aprender verdadeiramente a ser homem, e sim com o feminismo interseccional, com o transfeminismo (movimentos de luta pela emancipação feminina e que, obviamente, incluam pessoas trans): Os homens trans possuem um papel importante e estratégico no feminismo – enquanto nascidos e socializados como mulher – já que sentiram e sentem as opressões estruturais em seus corpos, suas liberdades, suas vidas.

Construímos nossa masculinidade partindo da autoidentificação, ninguém nos determina homens – pensando-se no fato dos homens cis já serem determinados, reconhecidos e socializados enquanto homens somente pelo fato de terem nascido com pênis – além da coerção da autonomia sobre nossos corpos: Se um homem trans engravidar, assim como a mulher cis, não vai poder decidir legalmente não gerar a criança. A possibilidade de construir a masculinidade a partir da autopercepção ensina aos homens cis que é possível sim ser “homem de verdade” e sem ninguém assim determinar, mas, de fato, desconstruir, ser. Se são determinados homens ao nascimento e sob todos os privilégios dos quais nossa sociedade proporciona a esses homens, nada mais adequado considerar que seu processo evolutivo seja considerado desconstrução. Nada mais adequado considerar, também, que o homem trans disposto a moldar sua masculinidade consonante a uma relação mais justa entre gêneros (seguindo parâmetros pontuados e apontados pelos feminismos citados acima) seja também uma desconstrução.

Se, pensando na lógica de nossa sociedade binária da qual homem e mulher possuem características determinadas e das quais o primeiro se sobrepõe à segunda dentre poderes, privilégios, violências, opressões, haver a consciência de que seu gênero pode, deve aparta-se destes aspectos e mostrar que a construção social do gênero masculino pode ser verdadeira e legítima, devemos, então, atentarmos ao homem trans. É nesse momento que é necessário seu destaque.

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