Texto originalmente publicado em inglês, de forma anônima, no site Aazah.

Assistir a história se repetindo diante de seus olhos é bastante difícil. Mesmo não sendo nenhuma novidade o lugar de “lanterninha” que mulheres trans, drag queens e pessoas não-brancas receberam depois de terem ajudado a criar o movimento LGBT, perceber que no novo filme Stonewall,  que conta a história dessa “revolução”, as reais protagonistas estão sendo apagadas da história dói.

Pequena lição histórica

Os levantes de Stonewall foram uma série de protestos violentos feitos contra a polícia pela comunidade LGBT+ na Nova Iorque de 1969. Muitos citam essa onda de manifestações ocorridas em Stonewall como um dos mais importantes eventos que deram início ao movimento LGBT+ nos EUA, assim como também o motriz para a fundação de todo movimento político da comunidade, tal qual o conhecemos nos tempos atuais.

Com a liberação do trailer, surgiu uma corrente de contestações à versão do diretor, Roland Emmerich, dos eventos históricos. O trailer alega que o filme se baseia em “eventos reais” e narra a trajetória de um homem jovem branco, cisgênero e gay que, supostamente, teria sido o primeiro a arremessar um tijolo e dar início aos protestos de Stonewall. Quando, na realidade, centenas de testemunhas oculares nos contam – com evidências documentadas – que a revolta foi iniciativa de drag queens negras e mulheres trans.

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As duas pessoas mais creditadas por terem acendido a centelha que deu origem às manifestações e terem pavimentado o caminho para o movimento LGBT+ atual, são Marsha P. Johnson – uma mulher trans negra que performava como drag queen -, e Sylvia Rivera – uma mulher trans porto riquenha. Essas duas pessoas, que são universalmente reconhecidas como as iniciadoras do movimento, parecem ter sido deixadas de lado para dar vez ao “garoto branco modelete” salvar o dia.

Marsha foi quem verdadeiramente “fechou o tempo” e começou tudo, de acordo com testemunhas na biografia de Stonewall escrita por David Carter. Ela foi ao Stonewall Inn aquela noite para comemorar seu 25° aniversário, e como a figura carimbada que era no bar, foi o centro de muitas das celebrações. Assim como muitas mulheres trans de seu tempo, ela se fazia performances como drag queen.

Durante os protestos, Marsha foi vista despejando um objeto pesado sobre o carro da polícia – um momento importante do início da resistência. Depois das manifestações, Marsha teve papel pioneiro no movimento, ela se manifestou na Wall Street dos anos 1980 contra os altíssimos preços da medicação anti-AIDS. Além de ter se tornado uma figura materna para muitos jovens LGBTI que a procuravam.

Sylvia Rivera

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Sylvia era uma drag queen porto riquenha de 17 anos e ativista trans na noite da rebelião. Ela chegou ao bar depois de ter sido persuadida por uma amiga, Tammy. Segundo uma biografia, ela estava entre a multidão que se reunia do lado de fora do bar. Acredita-se que ela tenha gritado: “É a revolução!”. Ela também é citada como tendo sido uma das primeiras pessoas a arremessar uma garrafa de vidro.

Sylvia foi uma das fundadoras tanto da Frente de Liberação Gay quanto da Coligação de Ativistas Gays, além de ter co-fundado a Ação Revolucionária das Travestis de Rua com sua grande amiga, Marsha P. Johnson. Sylvia dedicou sua vida a ajudar jovens drag queens e mulheres trans em situação de rua.

Dentre as outras pessoas que participaram nesse início estão Allyson Allante, que tinha apenas 14 anos quando foi presa, além de Diane Kearney , Zazu Nova, Miss Peaches e outras mais.

Com toda sinceridade, esse filme é um enorme tapa na cara das pessoas que participaram da rebelião, das pessoas que foram às ruas lutar pelo direito de serem tratadas como seres humanos. É um insulto a comunidade LGBT, a pessoas trans, drag queens, mulheres e pessoas não-brancas. Hollywood, mais uma vez, se apropriou de um evento histórico bastante significativo e o transformou numa manifestação de heroísmo de um jovem homem branco. Como se dissessem que esse pedaço da nossa história coletiva só tivesse valor se fosse apresentado através de um protagonista masculino e branco. Como se a única maneira de mudarmos realmente o mundo fosse através da liderança de um homem branco e cis.

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