Texto original em inglês de Micah Singleton.

Nos últimos cinco anos, Kanye West se transformou num dos maiores performers da nossa geração. Suas turnês têm sido rotineiramente aclamadas pela crítica, e sua apresentação no Coachella em 2011 é tida como a melhor da história do festival. Ainda assim, é deveras intrigante como West foi pauta de três petições criadas, só nesse ano, para impedí-lo de se apresentar em diferentes eventos. É desconcertante perceber como a persona pública de West se tornou um pára-raios de críticas e ameaças persistentes e baseadas em questões raciais.

Tudo começou em março, quando cerca de 130 mil pessoas assinaram uma petição para impedir que West tocasse no festival britânico Glastonbury. O organizador da petição declarou que West — que vendeu 21 milhões de álbuns — seria “um insulto a fãs de música do mundo inteiro”. A mesma iniciativa se repetiu no festival Ottawa Bluesfest, onde a destacada performance de West também foi questionada. O criador desta petição disse em entrevista: “acredito que o dinheiro deveria ser gasto com artistas relevantes do rock”, e que West deveria fazer um show em outra freguesia ao invés de “se aproveitar do hype de um festival maravilhoso como esse”. Mais recentemente, durante os Jogos Pan Americanos de Toronto, ele foi alvo de outra petição com mais de 50 mil assinaturas exigindo que West fosse removido da cerimônia de encerramento por não ser de Toronto.

Ao fim das três performances, West conquistou visivelmente a platéia e até mesmo os críticos mais ferrenhos como Noel Gallagher tiveram que admitir a altíssima qualidade do show assistido. Mas, se tudo fosse tão simples como o insistente subestimar do talento de West, você provavelmente não estaria lendo esse texto e eu, tampouco, o teria escrito. Para seus detratores, West simboliza algo nefasto, e o ódio direcionado a ele é um problema sistêmico que vem sendo fomentado ao longo dos últimos seis anos.

Primeiramente, devemos lembrar o que deu início a onda de ódio contra o Kanye West: sua intromissão na premiação da MTV de 2009, quando ele roubou o microfone da, então, mais nova queridinha branca da “América”, Taylor Swift, alegando que quem merecia o prêmio por Melhor Videoclip Feminino era Beyoncé. Pouco tempo depois, West se apaixonou por Kim Kardashian, a garota branca mais odiada dos EUA, uma união que só fez somar os desafetos direcionados a eles.

Quando comparamos a primeira metade da carreira de Kanye (2000-07) com a segunda metade (2008-15), a diferença mais notável é a interação dele com as duas mulheres brancas mais comentadas do país. Portanto, se você acredita que o crescimento vertiginoso no repúdio, e completo desdém, ao talento de um dos artistas mais aclamados dessa geração não tem nada a ver com o desconforto racial provocado pela imagem do negro que “aterroriza” a princesinha branca ou com o início de seu relacionamento (interracial) com a garota que todos amam odiar, você se engana enormemente.

Há uma série de boas razões para desgostar do Kanye, motivos os quais estiveram presentes desde sua chegada ao sucesso em 2000. Ele nunca escondeu de ninguém a monstruosidade de seu ego — “Minha grande frustração na vida é que jamais poderei assistir a uma apresentação minha ao vivo”, disse ele em 2006. Ele já havia invadido palcos anteriormente, e também já havia protestado contra a vitória de outros indicados — “Se eu não ganhar, essa premiação perderá sua credibilidade”, declarou West no MTV Europe Music Awards de 2006. West já até posou como Muhammad Ali e Jesus para capa da Rolling Stone em 2006. Muito antes de ter, literalmente, se comparado aos dois durante os intervalos da turnê The Yeezus Tour — “Vocês exigem que eu sempre dê o melhor de mim, mas não gostam quando eu reconheço que sou ótimo no que faço”, disse ele em seu perfil.

Nenhum artista jamais gerou tantos protestos contra si como Kanye. O último artista cuja presença foi contestada por uma petição, apesar do “mérito artístico”, foi Jay Z coincidentemente no — pasmem —  Glastonbury de 2008. Neil Lonsdale, o responsável pela petição, confessou numa entrevista que ficou tão transtornado com a evidência que a apresentação dele recebeu no festival, que “teve que lutar contra a tentação de sair gritando e apenas arremessou o seu iPhone na parede”. Lonsdale, que jamais havia ido ao Glastonbury, chegou ao ponto de dizer que não era racista, porém… Admitiu que se sentiu “genuinamente ameaçado” pela sua performance de All Day no Brit Awards. Sim, a apresentação/protesto de Kanye fez um homem adulto se tremer nas bases, apesar de ter feito até mesmo Taylor Swift dançar

Se você é um desses amantes da música que prefere ignorar toda a abundante produção de músicos não-brancos, Kanye West não deve ter facilitado muito a sua vida na última década. West simplesmente não faz o que “deveria” fazer. Ele não se atém ao código social do “cale-se e entretenha-me”. Uma regra antiga de conduta implícita que boa parte dos artistas, músicos e atletas negros têm acatado passivamente. West poderia ter ficado na dele, afastado de qualquer situação que poderia deixar o grande público desconfortável, todavia, ele insiste em se autointitular a maior estrela do rock do planeta — e ele é —, apesar de todas críticas injustificáveis da antiga elite do rock.

Tim Jonze, em texto para o The Guardian aponta bem a origem dessas críticas:

“Desde que os homens brancos reescreveram a história do rock para reflitir suas imagens e semelhanças, —como Mos Def eloquentemente apontou na sua canção de 1999 “Rock’N’Roll” —, eles não encontraram dificuldade alguma em passar a coroa de homem branco para homem branco, porém, hoje eles relutam com todas as forças em aceitar que um homem negro se sinta no direito de exigir essa coroa de volta.”

Se arrogância fosse justificativa suficiente para banir alguém de um festival, grande parte da indústria fonográfica deixaria de existir. Portanto, vamos aceitar que isso não se trata de uma personalidade intragável. Essa ojeriza, que faz com que Noel Gallagher se refira a Kanye West como um “moleque” — o eufemismo favorito de brancos que se sentem tolhidos pela atual etiqueta social por não poderem mais chamar mais negros de nigger publicamente.

Stereogum: “Você presta atenção nas premiações de música atuais?”

Noel Gallagher: “Sim, e estou sabendo que o nosso parça Kanye recentemente fez papel de palhaço em uma. Ele disse que o Beck deveria respeitar a “maestria artística” e entregar o prêmio à Beyoncé, não?”

Stereogum: “Inicialmente. Depois ele se retratou.”

Noel Gallagher: “Bem, em primeiro lugar, alguém deveria comprar um dicionário para esse moleque [boy]. E ele precisa procurar o maldito significado de “maestria”, e depois ver se ele o remete, sob qualquer aspecto, à Beyoncé. Se mexer a bunda pra ganhar a vida pode ser considerado arte, então, realmente , ela é uma grande artista, não?”

Apesar de tudo isso parecer ser algo totalmente desconexo dos problemas surgidos após a eleição do nosso primeiro presidente negro, e do precipitado declínio do debate racial estadunidense, basta olhar com mais atenção para percebermos que o ódio direcionado ao Kanye West é fruto da mesma mistura de xenofobia, racismo e exacerbada ignorância. Contudo, esse tipo de intolerância raramente é tão evidente – geralmente ela é encoberta em indiretas e microagressões. Nosso discurso social, cada vez mais, se apresenta como um entrelaçamento de fatos e preconceitos, produzindo um clima altamente inflamável, propenso a surtos de violência e contínuas tensões raciais.

As pessoas que protestaram em Glastonbury alegam que defendiam apenas a identidade musical do evento, a mesma que rotineiramente inclui rappers em sua programação; os que se manifestaram contra a escolha do comitê dos Jogos Pan Americanos, se esconderam atrás do patriotismo embora não tenham se pronunciado contra a escolha do cantor [também ianque] Pitbull. A mensagem em comum de todas essas manifestações, portanto, é um sonoro “você não é bem vindo aqui”, apesar de já ter passado meio século desde que as restrições sobre o direito de ir e vir das pessoas negras terem sido depostas. 

Quando tantas publicações empregam os mesmos argumentos que as pessoas brancas usam quando confrontadas por uma pessoa negra não-comportada, exigindo que a mesma maneire o tom, e o guitarrista David Crosby twitta que West é “burro como um poste”, é que começamos a vislumbrar o sentimento que dá origem a tudo isso. A personalidade de West em nada mudou durante a última década, contudo, o ressentimento que o público tem demonstrado com ele cresce exponencialmente. E, quanto mais ele se agrava, mais a sua real intenção é visível.

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